sábado, 20 de março de 2010

Pai

Pai

Pai

Tu deste-me o teu amor

Fizeste-me ver a razão,

Foste chamado pelo senhor

Mas vives no meu coração.

Pai

Com carinhos me adoçaste

Bebi da tua serenidade,

O caminho certo me ensinaste,

Foste homem de verdade.

Pai

Tu fizeste do amor

A tua razão de vida,

Perdoa-me, por favor,

Por não aceitar tua partida.

Pai

Partiste como viveste,

Promovendo a amizade.

Sempre comigo estiveste

E estarás para a eternidade.

Pai

Hoje cumprem-se anos

Desde a tua partida,

Eu continuo entre os humanos,

Lutando pela vida.

Pai

Muitas voltas ela deu,

Muito Tu me tens valido,

Eu, nem sei quem seria eu,

Sem Ti, meu pai querido.

Francis Raposo Ferreira

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Queda na realidade

Queda na realidade

Ele julgava-se o maior,

Nada lhe podia acontecer,

Queria tudo do melhor,

Viver a vida a belo prazer.

A sua vida eram as jantaradas,

As mulheres mais bonitas,

Para lhe dar boas noitadas

E que se deixassem de fitas.

Quem passava necessidades

Que fosse trabalhar,

Não lhe viessem com amizades

Não estava para os aturar.

Ele não precisava de ninguém,

Tinha tudo o que necessitava,

Quem não se sentisse bem,

Que se fosse, não lhe importava.

O vinho corria à farta,

A comida sempre sobrava,

Pobreza era doença nefasta

Ele nem sequer a suportava.

Mas um dia aconteceu,

Beberam do bom vinho

E quando a mulher adormeceu

Ele meteu-se ao caminho.

Não tinha a mínima noção

Do que lhe tinha acontecido,

Ali estava, deitado no chão

Como se tivesse adormecido.

Reparou que se fazia dia,

Tentou, então, levantar-se,

O corpo não fazia o que pedia,

Sentia o seu corpo a negar-se.

Pensou que ainda sonhava,

Que tudo aquilo era irreal,

Era uma força que o puxava,

Numa luta feroz e desigual.

As suas pernas, não as sentia,

Mas que se estava a passar.

Um barulho ao longe ouvia,

Parecia-lhe gente a gritar.

Viu chegar um, e depois outro,

Sentiu gerar-se a confusão,

Aquilo não estava a seu gosto,

Porque não o tiravam do chão.

Viu partir um a correr,

Enquanto o outro lhe gritava,

Não conseguia perceber

Tudo o que em redor se passava.

Uma maca se aproximava,

Não, para ele não podia ser,

Ele já lhes mostrava

Que nada lhe podia acontecer.

Viu-se a caminho do hospital,

A ambulância quase voava,

Percebeu que algo estava mal,

Algo de grave se passava.

Nas urgências deu entrada,

Foi observado de imediato.

A sua vida estava arruinada,

Não podia aceitar tal facto.

Os dias foram passando,

As pernas teimavam não se mover,

Ele foi então reparando

Que, nunca, ninguém o ia ver.

Via passar mulheres bonitas,

Nenhuma se destinava a si:

“Porque não tenho visitas,

Será que ninguém gosta de mim”

Uma enfermeira o viu chorar,

Aproximou-se delicadamente:

“ Meu jovem deixe lhe perguntar

Porque chora tão copiosamente”

O dono do mundo de outrora,

A olhou bem no fundo do rosto:

“O meu mundo ficou lá fora

E eu estou aqui neste desgosto”.

A enfermeira o tentou animar,

Dizendo-lhe carinhosamente:

“Em breve poderá voltar

Para junto de toda a sua gente”

Ele sentia vergonha de si,

Sabia que não tinha ninguém:

“Seria bom que fosse assim,

Ter quem me quisesse bem”.

A enfermeira não compreendeu

O alcance da mensagem:

“Tudo isto que lhe aconteceu

Dar-lhe-á muito mais coragem”

Coragem, poder, valentia,

Imaginara ele que tudo seu:

“Menina, já avistou algum dia,

Por aqui um amigo meu”.

A enfermeira teve de reflectir,

Sentiu uma vontade de gritar:

“ Sim, tenho de admitir,

Os amigos não o vêm visitar”.

Ele sentiu ruir o seu mundo,

Resolveu admitir a verdade:

“Sabe, bem cá no fundo,

Eu sei que não tenho amizade”

A rapariga não quis acreditar,

Pensou que era do momento:

“Vá lá, não pode desanimar,

A amizade é puro sentimento.”

Ele só agora o compreendia,

Levara uma vida de fachada:

“Sabe, afinal eu não vivia,

Aquilo não era vida nem era nada”.

A jovem se sentiu mal,

Percebia os argumentos do rapaz:

“Aproveite, vem aí o Natal

Vai fazer amizades, vai ser capaz.”

Ele levantou a cabeça,

Iria aproveitar a oportunidade:

“Desejo que assim aconteça,

Quero viver para a amizade”.

Ele sentiu-se muito melhor,

Ela acreditou que ele era capaz,

Eles descobriram o amor

E viveram uma vida de paz.

A vida sem amigos, é vazia,

Mesmo que tudo pareça normal,

Cultiva a amizade dia-a-dia,

Não esperes pelo dia de Natal.

Francis Raposo Ferreira

Pelo Planeta

Pelo Planeta…

Que mais poderá pedir

Um pobre e louco poeta,

Que não seja para se exigir

Que salvemos o planeta.

Podemos não ter o poder

Para ser nós a decidir,

Mas podemos fazer valer

A nossa voz para o exigir.

Não gritaremos por nós,

Mas pelo futuro do planeta

Que nunca nos doa a voz.

Os grandes senhores mundiais

Podem não ligar ao poeta

Mas não podem ignorar os demais.

Francis Raposo Ferreira

Que Mundo é este

Que mundo é este

Que mundo mais louco

Onde se mata friamente,

E se faz muito pouco

Para proteger essa gente.

Seja por violência doméstica

Ou por assassino atentado,

Esta sociedade está patética

A ver o mundo ser assassinado.

Iraque, morre-se por vingança,

Brasil, pela força da natureza.

E, eles, falam-nos de esperança.

Afinal que esperança é esta,

Não é a esperança, de certeza,

Que sai da mente de um poeta.

Francis Raposo Ferreira

Não me enganem mais

Não me enganem mais

Dizem que sou louco,

Talvez sejamos todos iguais,

Mas mesmo que seja mais um pouco

“Não me enganem mais.”

Não me importo da minha loucura,

É ela que me dá as forças essenciais

Para continuar a minha procura

E gritar: “Não me enganem mais”

Tenho visto tanta barbaridade

Cometida por ilustres intelectuais

Que mentem como se falassem verdade.

Tenho sentido dentro de mim

A vontade de gritar: “Não me enganem mais”

Porque sou louco, mas sou feliz assim.

Francis Raposo Ferreira

Sonhos de Natal

Sonho de Natal

Belinha não era bela só de nome, ela era, mesmo, uma miúda de quem toda a gente gostava, além de ser uma miúda bonita, ela era extremamente prestável, sempre pronta a ajudar quem precisasse, fosse na escola ou fosse na sua vida diária.

Acabada a escola, Belinha começou a trabalhar e rapidamente conquistou a simpatia de colegas e superiores hierárquicos, ela estava sempre pronta para fazer todas as tarefas que lhe pedissem, nunca olhando às horas e também nunca exigindo qualquer recompensa monetária para essa sua entrega. Foi neste meio-termo que Belinha começou a namorar com aquele que era o dono do seu coração, ela só tinha olhos para o seu amor.

Os anos foram passando e a vida foi mudando, Belinha foi-se apercebendo que muitos dos seus sonhos começavam a cair como se fossem simples folhas de árvore, a sua saúde começava a dar-lhe muitas preocupações e aqueles, que sempre lhe tinham dado palmadinhas nas costas e aproveitado da sua disponibilidade, abandonavam-na agora, logo agora que ela mais precisava, apesar de ainda ser uma jovem na força da vida. Chegando mesmo ao ponto de a tentarem machucar psicologicamente para que ela se fosse embora e deixasse o lugar para outro alguém que estivesse na disposição de dar tudo como ela dera, mas também a sua vida familiar se tornava uma preocupação para ela, não que lhe causassem desgostos, ela é que sentia muitas dificuldades para conseguir manter o ritmo que sempre mantivera, ou pelo menos não o conseguia fazer sem um grande sofrimento físico.

Aproximava-se o Natal e Belinha sentia crescer dentro de si um medo terrível, não pelo Natal, mas sim pelo que isso significava, muito mais trabalho e, sobretudo, muito mais frio, o que para a sua saúde era um grande sinónimo de sofrimento. O seu sofrimento acentuava-se durante as estações frias..

Os dias iam passando e ela procurava desdobrar-se para conseguir acudir a todas as exigências que a quadra exige, isto para além da enorme pressão psicológica que lhe era transmitida no seu local de trabalho.

Chegou o dia 23 de Dezembro e Belinha debatia-se entre dois sentimentos, por um lado ansiava pela chegada da noite de consoada e poder ver a alegria estampada na face dos filhos, mas por outro lado sabia que aquela noite significava muito mais trabalho, muito mais louça para lavar, muito mais coisas para arrumar, isto é, significava muito mais sofrimento.

Estava ela entregue aos seus pensamentos quando foi chamada à presença do director da empresa.

Ficou intrigada e preocupada, o que lhe desejaria ele, logo naquele dia.

Belinha entrou no escritório do director e ficou surpreendida ao ver o homem que estava à sua frente, um velho companheiro de trabalho:

- Desculpa, o que fazes aqui? Onde está o director?

- Calma Belinha, senta-te e ouve.

Belinha sentou-se sem compreender o que se passava. O seu anfitrião explicou-lhe que muita coisa mudara na empresa e que ele era o novo director, explicando-lhe que a nova direcção sabia reconhecer tudo o que ela sempre dera à empresa, e que essa sua dedicação e entrega iria ser devidamente recompensada.

- Agora podes ir para casa, dia 26 cá te esperamos para definirmos as tuas novas funções.

Belinha nem queria acreditar, saiu do escritório e correu para casa. Contou as novidades ao marido, e aos filhos, e preparou-se para ir adiantar os preparativos para o dia seguinte.

- Não mãe, tu este ano não estás autorizada a fazer nada, trabalhaste um ano inteiro na empresa e ainda fizeste todas as tarefas de casa. Agora chegou o Natal, a festa da família, e nós, a tua família, queremos recompensar-te por tudo quanto nos deste durante, não um ano, mas sim durante uma vida.

Belinha via cumprirem-se, num único dia, todos os sonhos que um dia ousara sonhar, ver reconhecida a sua dedicação à empresa e sentir que valera a pena lutar pela sua família.

Afinal cumpria-se aquele que sempre fora o seu grande sonho de Natal.

Moral da história: “Bastam simples gestos de gratidão e reconhecimento para alegrar o Natal”

Francis Raposo Ferreira