terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Queda na realidade

Queda na realidade

Ele julgava-se o maior,

Nada lhe podia acontecer,

Queria tudo do melhor,

Viver a vida a belo prazer.

A sua vida eram as jantaradas,

As mulheres mais bonitas,

Para lhe dar boas noitadas

E que se deixassem de fitas.

Quem passava necessidades

Que fosse trabalhar,

Não lhe viessem com amizades

Não estava para os aturar.

Ele não precisava de ninguém,

Tinha tudo o que necessitava,

Quem não se sentisse bem,

Que se fosse, não lhe importava.

O vinho corria à farta,

A comida sempre sobrava,

Pobreza era doença nefasta

Ele nem sequer a suportava.

Mas um dia aconteceu,

Beberam do bom vinho

E quando a mulher adormeceu

Ele meteu-se ao caminho.

Não tinha a mínima noção

Do que lhe tinha acontecido,

Ali estava, deitado no chão

Como se tivesse adormecido.

Reparou que se fazia dia,

Tentou, então, levantar-se,

O corpo não fazia o que pedia,

Sentia o seu corpo a negar-se.

Pensou que ainda sonhava,

Que tudo aquilo era irreal,

Era uma força que o puxava,

Numa luta feroz e desigual.

As suas pernas, não as sentia,

Mas que se estava a passar.

Um barulho ao longe ouvia,

Parecia-lhe gente a gritar.

Viu chegar um, e depois outro,

Sentiu gerar-se a confusão,

Aquilo não estava a seu gosto,

Porque não o tiravam do chão.

Viu partir um a correr,

Enquanto o outro lhe gritava,

Não conseguia perceber

Tudo o que em redor se passava.

Uma maca se aproximava,

Não, para ele não podia ser,

Ele já lhes mostrava

Que nada lhe podia acontecer.

Viu-se a caminho do hospital,

A ambulância quase voava,

Percebeu que algo estava mal,

Algo de grave se passava.

Nas urgências deu entrada,

Foi observado de imediato.

A sua vida estava arruinada,

Não podia aceitar tal facto.

Os dias foram passando,

As pernas teimavam não se mover,

Ele foi então reparando

Que, nunca, ninguém o ia ver.

Via passar mulheres bonitas,

Nenhuma se destinava a si:

“Porque não tenho visitas,

Será que ninguém gosta de mim”

Uma enfermeira o viu chorar,

Aproximou-se delicadamente:

“ Meu jovem deixe lhe perguntar

Porque chora tão copiosamente”

O dono do mundo de outrora,

A olhou bem no fundo do rosto:

“O meu mundo ficou lá fora

E eu estou aqui neste desgosto”.

A enfermeira o tentou animar,

Dizendo-lhe carinhosamente:

“Em breve poderá voltar

Para junto de toda a sua gente”

Ele sentia vergonha de si,

Sabia que não tinha ninguém:

“Seria bom que fosse assim,

Ter quem me quisesse bem”.

A enfermeira não compreendeu

O alcance da mensagem:

“Tudo isto que lhe aconteceu

Dar-lhe-á muito mais coragem”

Coragem, poder, valentia,

Imaginara ele que tudo seu:

“Menina, já avistou algum dia,

Por aqui um amigo meu”.

A enfermeira teve de reflectir,

Sentiu uma vontade de gritar:

“ Sim, tenho de admitir,

Os amigos não o vêm visitar”.

Ele sentiu ruir o seu mundo,

Resolveu admitir a verdade:

“Sabe, bem cá no fundo,

Eu sei que não tenho amizade”

A rapariga não quis acreditar,

Pensou que era do momento:

“Vá lá, não pode desanimar,

A amizade é puro sentimento.”

Ele só agora o compreendia,

Levara uma vida de fachada:

“Sabe, afinal eu não vivia,

Aquilo não era vida nem era nada”.

A jovem se sentiu mal,

Percebia os argumentos do rapaz:

“Aproveite, vem aí o Natal

Vai fazer amizades, vai ser capaz.”

Ele levantou a cabeça,

Iria aproveitar a oportunidade:

“Desejo que assim aconteça,

Quero viver para a amizade”.

Ele sentiu-se muito melhor,

Ela acreditou que ele era capaz,

Eles descobriram o amor

E viveram uma vida de paz.

A vida sem amigos, é vazia,

Mesmo que tudo pareça normal,

Cultiva a amizade dia-a-dia,

Não esperes pelo dia de Natal.

Francis Raposo Ferreira

4 comentários:

  1. Faz de cada dia da tua existência, um dia de Natal. Renasce. Sê o mesmo, mas melhor.
    Boa Festas, amigo! Bjs:)

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  2. Ainda a curar a ressaca da passagem de nao, amigo? Estou a brincar;)
    Desejo-te um 2010 muito feliz, junto daqueles que mais amas! Bjs:)

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  3. Onde está o nosso poeta, que nada nos diz?!...

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  4. Por onde anda você, afinal?
    Nada diz de si...
    Espero que esteja tudo bem consigo, Francis!
    Um abraço:)

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