Hoje, após o almoço, deparei-me com uma cena que me provocou um grande mal-estar.
Um homem, aparentando alguma idade, remexia nos caixotes do lixo que se encontram à porta do colégio onde trabalho, fui-me aproximando e procurei não olhar para o homem, não queria que se sentisse melindrado. Foi precisamente quando passava junto a ele que me dirigiu a palavra:
- Desculpe, o senhor trabalha aqui no colégio?
Olhei-o e respondi-lhe:
- Trabalho sim senhor.
- Acha que há algum problema em andar aqui há procura de qualquer coisa para comer?
Senti uma raiva a subir por mim acima, como é que era possível alguém ter de andar a remexer nos caixotes do lixo para poder comer, disse-lhe:
- Penso que não. Mas porque é que o senhor não vai a essas casa da sopa dos pobres que há por aí espalhadas pela cidade?
- Não posso, eu vivo aqui perto, a minha mulher está acamada e eu não me posso afastar muito de casa.
A minha revolta redobrou. Aproximei-me do homem e disse-lhe:
- Ouça, se eu lhe pagar o almoço, o senhor deixa de remexer nos caixotes?
- Então e a minha mulher, isto não é só para mim.
- Ok. Venha daí comigo. Eu pago-lhe o almoço e também o da sua mulher.
O pobre homem recusou, eu insisti e ele recusou, insisti e ele acabou por aceitar.
Fiz questão de o acompanhar durante a refeição, e foi então que ouvi uma história que me deixou petrificado. Aquele homem trabalhara toda a sua vida, estava reformado, a sua mulher adoecera gravemente há uns dois anos, acamada mesmo. O dinheiro da reforma quase não chegava para a renda e para os remédios da mulher, gastara as suas economias na ajuda da compra da casa do único filho, filho esse que agora nem se dava ao trabalho de saber como passavam.
Procurara recorrer a algumas ajudas das entidades oficiais, mas como tinha uma reforma, não tinha direito a qualquer ajuda. Um homem que passou a sua vida a trabalhar não tem direito a viver dignamente o resto dos seus dias de vida, quando as mesmas autoridades que lhe recusam esse direito, atribuem subsídios a quem dorme até ao meio-dia e passa o resto numa boa esplanada dos cafés.
Não disse nada ao pobre homem, só lhe pedi a sua morada, morava ali muito próximo do colégio. Ao chegar ao mesmo contei a história a uma velha funcionária, esta olhou-me nos olhos e disse-me:
- Olhe Sr. Dr., eu conheço bem a história desse pobre homem, toda a vida trabalhou para dar tudo ao filho e agora ele nem quer saber dos pais. Vive de esmolas, e olhe que se há pessoas com uma boa vida, ele era uma delas.
Afastei-me e dei comigo a pensar se seria este o rumo que a nossa sociedade estava de facto a trilhar. Numa época em que tanto se fala de globalização e de direitos humanos.
Francis Raposo Ferreira
Há tantas histórias destas por aí...
ResponderExcluirÉ triste!